domingo, 22 de fevereiro de 2026

Poema "PRIMAVERA"


PRIMAVERA

Fechei a porta ao tempo
da escuridão dos dias.

Abri a minha alma
às promessas de luz,
de sonho e de vida
nos ramos das árvores.

Deixo que o sol
me ilumine os olhos,
faíscas claras
no bulício das águas.

Como precisava
que chegasse o momento…

Afasto-me da porta.
Embriago-me de primavera.

José António de Carvalho, 22-fevereiro-2026





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Poema "ANIVERSÁRIO"


ANIVERSÁRIO

Se houvesse um sopro,
palmas, centelhas de luz…

Um cântico de alegria
a saudar a vida.

Se houvesse magia
e o anúncio da primavera,

família em volta,
em calorosa harmonia.

Se Deus o tivesse querido,
bastaria operar
um milagre dos antigos.

Estarias aqui, no teu aniversário,
com família e amigos,

recebendo parabéns
e abraços fraternos.

Agora, apenas memórias e orações,
saudades vivas nos corações.

José António de Carvalho, 16-fevereiro-2026




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Reflexão: "A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX"


Texto para todos — Mas particularmente para aniversariantes.


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX

Penso na vida como um velho relógio de ponteiros, desses que indicavam o dia, a semana, o mês. Um relógio ultrapassado, mas ainda muito apreciado pela sua beleza e delicadeza.

Penso, também, na forma estranha como o tempo acelera à medida que avançamos.

Aos dez anos, a vida arrasta-se, quase imóvel, como o marcador do mês — olhamos, voltamos a olhar, e nada parece ter mudado.

Aos vinte, avança com a lentidão confortável do indicador da semana. O tempo ainda é largo, ainda há espaço para tudo. Chega a cansar olhar para o relógio sempre na mesma hora.

Aos trinta, o tempo ganha cadência. Já não o seguimos com os olhos, mas com os sentidos; confiamos nele. O dia passa como o ponteiro das horas: constante, previsível, quase silencioso. Apenas acreditamos que passou depois de ele já ter passado.

Aos quarenta, o dia passa como passam os bons dias, com manhãs, tardes, fins de tarde e boas noites: nem depressa, nem devagar, apenas como como deve ser.

Aos cinquenta, o dia já nos engana. Entra num carro a diesel: começa devagar, quase hesitante, mas, quando damos por isso, já está a chegar ao destino.

Aos sessenta, o dia precipita-se. Vem à velocidade de um carro de Fórmula 1. Vemos a forma, adivinhamos a cor, e já passou — ficam o fumo, o cheiro a borracha quente dos pneus e o deslocamento do ar. Ficamos ainda a tentar perceber o que aconteceu, e entretanto passa uma semana, ou um mês.

Aos setenta, surge como a surpresa de um avião supersónico. Vemo-lo e assustamo-nos; rodamos o pescoço, tentamos segui-lo com o olhar, e só depois chega o som — de outro Natal que passa — e comovemo-nos.

Aos oitenta, é como um raio de luz.
Se o sentirmos, já é uma sorte.

José António de Carvalho, 04-fevereiro-2026
Foto do Instituto Português de Relojoaria