terça-feira, 5 de maio de 2026

Poema "NO REGAÇO DE MAIO"



NO REGAÇO DE MAIO

No regaço do mês de maio,

desdobra-se um manto branco

que se estende no calendário

como um jardim de cravos de oiro

regado pelo canto das andorinhas.

 

Do seu voo nascem estrelas,

da cor das velas das barquinhas;

e nas águas doces dos corações,

onde a ternura alimenta as raízes,

cantam meninos e meninas

à Mãe de todas as mães

as suas orações pequeninas.

 

E da brisa da sua voz inocente,

vão esmaecendo lentamente

os contornos das armas das nações.


José António de Carvalho, 05-maio-2026
Foto "Quadro Pinterest"





domingo, 3 de maio de 2026

Poema "MÃE" – Dia da Mãe, 03-maio-2026



MÃE – Dia da Mãe, 03-maio-2026

Mãe que abraça,
Mãe que chama,
Mãe que acende
a luz da alma.

Mãe que embala,
Mãe que aquece,
Mãe que sara
o que entristece.

Mãe que planta,
Mãe que guia,
Mãe que luta
dia a dia.

Mãe que ampara,
Mãe que espera,
Mãe que guarda
a vida inteira.

Mãe que sente,
Mãe que chora,
Mãe ferida,
Mãe que adora.

Mãe menina,
Mãe mulher,
Mãe que ensina,
Mãe que é…

Sempre calorosa,
mesmo quando o mundo pesa.
Sempre firme,
pela ternura que traz acesa.

Nem a idade a verga
nem a fragilidade a para;
serás sempre a Mãe,
e nada nos separa.

José António de Carvalho, 03-maio-2026



quarta-feira, 29 de abril de 2026

Poema "AGORA"


AGORA

Quando tudo se faz breve,
um ser quase por não ser,
o que temos não nos serve;
e o que está por suceder
crê-se que há-de valer.

Se o passado já passou,
quem ao agora não liga
e ao futuro se entregou,
saiba que ele até castiga
quem no desejo se abriga.

Que se aprenda a bem viver
no instante que se revela,
não só no que há-de ser
nem na memória tão bela,
mas no agora que interpela:

Se a vida passa a correr,
não a deixes escapar,
aprende a nela viver
e com o tempo lutar
p’lo agora, que é o lugar.


José António de Carvalho, 29-abril-2026
Foto "Pinterest"




sábado, 18 de abril de 2026

Poema "CRAVO VERMELHO"


CRAVO VERMELHO 

Era a esperança,
o cerne do sonho,
a alma do corpo
em sangue rubi.

Nascido em abril,
abriu-se, floriu,
numa dança viva
tecida pelas mãos.

Era cor de aliança,
luz erguida,
abrindo horizontes
nas fábricas,
nos campos, nas cidades,
nos montes —
e nos olhos da vida,
nascia um novo dia.

Iluminava paisagens
agitadas pelo vento.
Cantaram papoilas
no ventre das searas,
grávidas de imagens,
de sonhos e dores
de um país que acorda.

O negro da espera
esfumou-se nos céus,
abrindo uma esfera
de múltiplas cores:
astros de sonho,
memória viva
deste povo —
pobre
e nobre.

José António de Carvalho, 18-abril-2026
Pintura "Pinterest"




sábado, 7 de março de 2026

Poema "A UM CARVALHO"


A UM CARVALHO

Ele continua.
Escondeu-se,
perdeu as folhas.

No recato do sossego
sofreu o frio da dor
insuportável,
o vazio sem cor.

Mas nas suas veias
sempre correu
lentamente e a fluir,
a esperança
em amor.

As raízes são fortes,
são lembranças
e alimento
de quem o plantou,
de quem passou,
mas vive.

Olho para ele e vejo
o presente e o futuro,
o perpetuar da vida
naquilo que desejo:
em mim,
em ti,
em todos nós.

José António de Carvalho, 07-março-2026



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Poema "PRIMAVERA"


PRIMAVERA

Fechei a porta ao tempo
da escuridão dos dias.

Abri a minha alma
às promessas de luz,
de sonho e de vida
nos ramos das árvores.

Deixo que o sol
me ilumine os olhos,
faíscas claras
no bulício das águas.

Como precisava
que chegasse o momento…

Afasto-me da porta.
Embriago-me de primavera.

José António de Carvalho, 22-fevereiro-2026





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Poema "ANIVERSÁRIO"


ANIVERSÁRIO

Se houvesse um sopro,
palmas, centelhas de luz…

Um cântico de alegria
a saudar a vida.

Se houvesse magia
e o anúncio da primavera,

família em volta,
em calorosa harmonia.

Se Deus o tivesse querido,
bastaria operar
um milagre dos antigos.

Estarias aqui, no teu aniversário,
com família e amigos,

recebendo parabéns
e abraços fraternos.

Agora, apenas memórias e orações,
saudades vivas nos corações.

José António de Carvalho, 16-fevereiro-2026




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Reflexão: "A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX"


Texto para todos — Mas particularmente para aniversariantes.


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX

Penso na vida como um velho relógio de ponteiros, desses que indicavam o dia, a semana, o mês. Um relógio ultrapassado, mas ainda muito apreciado pela sua beleza e delicadeza.

Penso, também, na forma estranha como o tempo acelera à medida que avançamos.

Aos dez anos, a vida arrasta-se, quase imóvel, como o marcador do mês — olhamos, voltamos a olhar, e nada parece ter mudado.

Aos vinte, avança com a lentidão confortável do indicador da semana. O tempo ainda é largo, ainda há espaço para tudo. Chega a cansar olhar para o relógio sempre na mesma hora.

Aos trinta, o tempo ganha cadência. Já não o seguimos com os olhos, mas com os sentidos; confiamos nele. O dia passa como o ponteiro das horas: constante, previsível, quase silencioso. Apenas acreditamos que passou depois de ele já ter passado.

Aos quarenta, o dia passa como passam os bons dias, com manhãs, tardes, fins de tarde e boas noites: nem depressa, nem devagar, apenas como como deve ser.

Aos cinquenta, o dia já nos engana. Entra num carro a diesel: começa devagar, quase hesitante, mas, quando damos por isso, já está a chegar ao destino.

Aos sessenta, o dia precipita-se. Vem à velocidade de um carro de Fórmula 1. Vemos a forma, adivinhamos a cor, e já passou — ficam o fumo, o cheiro a borracha quente dos pneus e o deslocamento do ar. Ficamos ainda a tentar perceber o que aconteceu, e entretanto passa uma semana, ou um mês.

Aos setenta, surge como a surpresa de um avião supersónico. Vemo-lo e assustamo-nos; rodamos o pescoço, tentamos segui-lo com o olhar, e só depois chega o som — de outro Natal que passa — e comovemo-nos.

Aos oitenta, é como um raio de luz.
Se o sentirmos, já é uma sorte.

José António de Carvalho, 04-fevereiro-2026
Foto do Instituto Português de Relojoaria




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Poema "VALE A PENA"


VALE A PENA

Vale a pena resistir
À mutilação do sonho,
Ao fantasma do fracasso.
Pegar as rédeas e ir
À procura de um espaço.

Vale a pena analisar
Cada lágrima vertida,
Cada noite não dormida
Pela dor que quis ficar
No meu peito a macerar.

Vale a pena acreditar
Que o amor não morreu,
Não foi enterrado – vive…
No que sou e onde estive,
No que resta caminhar.

José António de Carvalho, 27-janeiro-2026
Foto da minha autoria








sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Poema "ENCANTO"


ENCANTO

O encanto mora
Em cada segundo,
Em cada hora…
E em cada dia
Em que a tarde cai,
Remexe e finda;
E no cerrar dos olhos
Do dia que se vai;

No seio da noite,
No brilho das estrelas
Do sonho até à aurora;
No abraço que se deu,
No que se dá e vai embora;
Nos que quero dar ainda…

José António de Carvalho, 16-janeiro-2026
Imagem Pinterest





quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Poema "2026, SEM PRESSA"


2026, SEM PRESSA


Não digo mal de um velho

Que andou na corda da vida

E que para mim é espelho

Do que quero viver ainda. 

 

Fique o velho 2025, 

Que até foi abençoado,

Limpo, de rosto absinto,

Sem preconceito de passado.

 

Que venha de manso, sem pressa,

Em voo de ave e de luz,

Pôr fim ao ódio depressa

Que ao abismo nos conduz.


José António de Carvalho, 01-janeiro-2026

Foto "Pinterest"