sábado, 6 de junho de 2026

Marcha de Santo António – 2026

Marcha de Santo António – 2026

Quadras a concurso organizadas em Marcha Popular.

As festas de Santo António voltam a iluminar Famalicão com o brilho que só a tradição sabe acender. Entre o som das marchas, o perfume dos manjericos e a alegria que percorre as ruas, nasceram estas quadras — algumas delas distinguidas com menção honrosa no concurso deste ano.

Agradeço ao Orfeão Famalicense, que celebra 110 anos de existência, e à Câmara Municipal de Famalicão, pela organização deste concurso que mantém viva a nossa identidade cultural e dá voz aos que continuam a escrever para a festa.

Reunidas agora numa versão organizada e evolutiva, estas quadras formam uma marcha completa: começam na cidade que desperta, seguem pela folia do feriado, atravessam o baile popular, celebram o orgulho famalicense e regressam à emoção que une o povo em cada junho.

São versos que dançam, que sorriem, que recordam e que celebram.

São também um gesto de gratidão à inspiração que, ano após ano, me leva a participar nesta tradição tão nossa.

Que estas quadras continuem a ecoar nas ruas, nos arraiais e nos corações.

José António de Carvalho


Marcha

Pelas ruas da cidade há muito corre o rumor: Santo António, na verdade, é mestre do bom humor.


Refrão Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Pecado é trabalhar no dia de Santo António, vamos lá todos dançar nestas festas património.

No dia das Antoninas pecado é trabalhar, faço férias pequeninas para poder festejar.

Na terra é feriado e veio mesmo a calhar, se o santo é festejado, pecado é trabalhar.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Alegria p’ras mais novas, ainda mais para as crescidas; é aqui que se dão provas, rapazes e raparigas.

Morta de tanto bailar e a noite ainda a meio; agora já tenho par, vamos dormir no centeio.

No centeio vou ficar, não sei se chego ao meio; se lá conseguir entrar, pois das bordas estou cheio.

Espero entrar na folia e arranjar um casamento; prometo que o levaria para o teu próximo evento.

Santinho, não leve a mal, se a quadra sai mais faceira; é costume no arraial, tudo isto é brincadeira.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

No relento vou ficar recuperando energias; e voltarei p’ra dançar e queimar mais calorias.

Santo António é do povo e tem grande coração trazendo vida de novo à nossa Famalicão.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Guarda, Santinho, a folia, grande noite a recordar... dá-me saúde e alegria, para o ano quero voltar.

O Santo António chuvoso vem o verão anunciar; vai ser mais delicioso com guarda-chuva a abrigar.

Há muito corre o rumor que o Santinho vai contente lá no alto do seu andor a saudar toda esta gente.

Convidei prás Antoninas belas rosas do jardim, são meninas bailarinas que dançam até ó fim.

Vieram dos quatro cantos do país para dançarem, nas ruas dos mil encantos fazem juras de voltarem.

No dia treze de junho há séculos a contar Vieira de voz em punho quis Santo António louvar.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Ver as ruas tão floridas, com gente linda a sorrir, apaga a dor das feridas que a vida teima em abrir.

E nesta festa em união, o povo sábio em viver, de pé leve e coração, lá consegue renascer.

Há anos que se trabalha no f’riado do concelho; Santo António muito ralha, não lhe adianta fazê-lo.

Ai Santinho, estou sem ar e a noite ainda vai criança, a dançar perdi meu par; o que fazer da aliança?

Inspira-te Santo António e faz lá a tua quadra; incentiva o matrimónio... verás que não custa nada!

És feliz com o menino nesse colo acolchoado, mas não é esse o destino de muito pobre coitado.

Ligam o treze ao azar por esquecerem o dia que Santo António vem dar razões de tanta folia.

Canta e dança alegremente, sejas jovem ou nem tanto, contagia toda a gente na festa do nosso Santo.

As pombinhas acordaram na manhã do dia treze e bem cedo festejaram na lagoa da Devesa.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.






domingo, 24 de maio de 2026

Poema "NA ESPERANÇA DE SEGUIR"


NA ESPERANÇA DE SEGUIR

Mudamos sem dar por isso,
como água a fluir no rio;
a vida empurra, dobra, inclina,
e o corpo cede ao desvio.

Vestimos sempre novas peles,
tentamos salvar o coração;
umas são nossas, outras não,
mas fingimos para proteção.

O espelho mente de leve,
com rude ternura ou crueldade;
mostra sombras do que fomos
e afasta-nos da verdade.

E assim seguimos vivendo
entre o que somos e parecemos:
a alma cedo embala na deriva,
o mundo exige — e cegos cedemos.

No limiar da ilusão
erguemos casa no assombro;
somos quem somos… e o resto
dissolve-se dentro de nós:
entre o que fomos
e o que sonhávamos ser
e que nunca seremos.

José António de Carvalho, 24-maio-2026
Foto "Pinterest"



terça-feira, 5 de maio de 2026

Poema "NO REGAÇO DE MAIO"



NO REGAÇO DE MAIO

No regaço do mês de maio,

desdobra-se um manto branco

que se estende no calendário

como um jardim de cravos de oiro

regado pelo canto das andorinhas.

 

Do seu voo nascem estrelas,

da cor das velas das barquinhas;

e nas águas doces dos corações,

onde a ternura alimenta as raízes,

cantam meninos e meninas

à Mãe de todas as mães

as suas orações pequeninas.

 

E da brisa da sua voz inocente,

vão esmaecendo lentamente

as sombras das armas das nações.


José António de Carvalho, 05-maio-2026
Foto "Quadro Pinterest"





domingo, 3 de maio de 2026

Poema "MÃE" – Dia da Mãe, 03-maio-2026



MÃE – Dia da Mãe, 03-maio-2026

Mãe que abraça,
Mãe que chama,
Mãe que acende
a luz da alma.

Mãe que embala,
Mãe que aquece,
Mãe que sara
o que entristece.

Mãe que planta,
Mãe que guia,
Mãe que luta
dia a dia.

Mãe que ampara,
Mãe que espera,
Mãe que guarda
a vida inteira.

Mãe que sente,
Mãe que chora,
Mãe ferida,
Mãe que adora.

Mãe menina,
Mãe mulher,
Mãe que ensina,
Mãe que é…

Sempre calorosa,
mesmo quando o mundo pesa.
Sempre firme,
pela ternura que traz acesa.

Nem a idade a verga
nem a fragilidade a para;
serás sempre a Mãe,
e nada nos separa.

José António de Carvalho, 03-maio-2026



quarta-feira, 29 de abril de 2026

Poema "AGORA"


AGORA

Quando tudo se faz breve,
um ser quase por não ser,
o que temos não nos serve;
e o que está por suceder
crê-se que há-de valer.

Se o passado já passou,
quem ao agora não liga
e ao futuro se entregou,
saiba que ele até castiga
quem no desejo se abriga.

Que se aprenda a bem viver
no instante que se revela,
não só no que há-de ser
nem na memória tão bela,
mas no agora que interpela:

Se a vida passa a correr,
não a deixes escapar,
aprende a nela viver
e com o tempo lutar
p’lo agora, que é o lugar.


José António de Carvalho, 29-abril-2026
Foto "Pinterest"




sábado, 18 de abril de 2026

Poema "CRAVO VERMELHO"


CRAVO VERMELHO 

Era a esperança,
o cerne do sonho,
a alma do corpo
em sangue rubi.

Nascido em abril,
abriu-se, floriu,
numa dança viva
tecida pelas mãos.

Era cor de aliança,
luz erguida,
abrindo horizontes
nas fábricas,
nos campos, nas cidades,
nos montes —
e nos olhos da vida,
nascia um novo dia.

Iluminava paisagens
agitadas pelo vento.
Cantaram papoilas
no ventre das searas,
grávidas de imagens,
de sonhos e dores
de um país que acorda.

O negro da espera
esfumou-se nos céus,
abrindo uma esfera
de múltiplas cores:
astros de sonho,
memória viva
deste povo —
pobre
e nobre.

José António de Carvalho, 18-abril-2026
Pintura "Pinterest"




sábado, 7 de março de 2026

Poema "A UM CARVALHO"


A UM CARVALHO

Ele continua.
Escondeu-se,
perdeu as folhas.

No recato do sossego
sofreu o frio da dor
insuportável,
o vazio sem cor.

Mas nas suas veias
sempre correu
lentamente e a fluir,
a esperança
em amor.

As raízes são fortes,
são lembranças
e alimento
de quem o plantou,
de quem passou,
mas vive.

Olho para ele e vejo
o presente e o futuro,
o perpetuar da vida
naquilo que desejo:
em mim,
em ti,
em todos nós.

José António de Carvalho, 07-março-2026



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Poema "PRIMAVERA"


PRIMAVERA

Fechei a porta ao tempo
da escuridão dos dias.

Abri a minha alma
às promessas de luz,
de sonho e de vida
nos ramos das árvores.

Deixo que o sol
me ilumine os olhos,
faíscas claras
no bulício das águas.

Como precisava
que chegasse o momento…

Afasto-me da porta.
Embriago-me de primavera.

José António de Carvalho, 22-fevereiro-2026





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Poema "ANIVERSÁRIO"


ANIVERSÁRIO

Se houvesse um sopro,
palmas, centelhas de luz…

Um cântico de alegria
a saudar a vida.

Se houvesse magia
e o anúncio da primavera,

família em volta,
em calorosa harmonia.

Se Deus o tivesse querido,
bastaria operar
um milagre dos antigos.

Estarias aqui, no teu aniversário,
com família e amigos,

recebendo parabéns
e abraços fraternos.

Agora, apenas memórias e orações,
saudades vivas nos corações.

José António de Carvalho, 16-fevereiro-2026




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Reflexão: "A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX"


Texto para todos — Mas particularmente para aniversariantes.


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX


A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX

Penso na vida como um velho relógio de ponteiros, desses que indicavam o dia, a semana, o mês. Um relógio ultrapassado, mas ainda muito apreciado pela sua beleza e delicadeza.

Penso, também, na forma estranha como o tempo acelera à medida que avançamos.

Aos dez anos, a vida arrasta-se, quase imóvel, como o marcador do mês — olhamos, voltamos a olhar, e nada parece ter mudado.

Aos vinte, avança com a lentidão confortável do indicador da semana. O tempo ainda é largo, ainda há espaço para tudo. Chega a cansar olhar para o relógio sempre na mesma hora.

Aos trinta, o tempo ganha cadência. Já não o seguimos com os olhos, mas com os sentidos; confiamos nele. O dia passa como o ponteiro das horas: constante, previsível, quase silencioso. Apenas acreditamos que passou depois de ele já ter passado.

Aos quarenta, o dia passa como passam os bons dias, com manhãs, tardes, fins de tarde e boas noites: nem depressa, nem devagar, apenas como como deve ser.

Aos cinquenta, o dia já nos engana. Entra num carro a diesel: começa devagar, quase hesitante, mas, quando damos por isso, já está a chegar ao destino.

Aos sessenta, o dia precipita-se. Vem à velocidade de um carro de Fórmula 1. Vemos a forma, adivinhamos a cor, e já passou — ficam o fumo, o cheiro a borracha quente dos pneus e o deslocamento do ar. Ficamos ainda a tentar perceber o que aconteceu, e entretanto passa uma semana, ou um mês.

Aos setenta, surge como a surpresa de um avião supersónico. Vemo-lo e assustamo-nos; rodamos o pescoço, tentamos segui-lo com o olhar, e só depois chega o som — de outro Natal que passa — e comovemo-nos.

Aos oitenta, é como um raio de luz.
Se o sentirmos, já é uma sorte.

José António de Carvalho, 04-fevereiro-2026
Foto do Instituto Português de Relojoaria




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Poema "VALE A PENA"


VALE A PENA

Vale a pena resistir
À mutilação do sonho,
Ao fantasma do fracasso.
Pegar as rédeas e ir
À procura de um espaço.

Vale a pena analisar
Cada lágrima vertida,
Cada noite não dormida
Pela dor que quis ficar
No meu peito a macerar.

Vale a pena acreditar
Que o amor não morreu,
Não foi enterrado – vive…
No que sou e onde estive,
No que resta caminhar.

José António de Carvalho, 27-janeiro-2026
Foto da minha autoria








sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Poema "ENCANTO"


ENCANTO

O encanto mora
Em cada segundo,
Em cada hora…
E em cada dia
Em que a tarde cai,
Remexe e finda;
E no cerrar dos olhos
Do dia que se vai;

No seio da noite,
No brilho das estrelas
Do sonho até à aurora;
No abraço que se deu,
No que se dá e vai embora;
Nos que quero dar ainda…

José António de Carvalho, 16-janeiro-2026
Imagem Pinterest





quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Poema "2026, SEM PRESSA"


2026, SEM PRESSA


Não digo mal de um velho

Que andou na corda da vida

E que para mim é espelho

Do que quero viver ainda. 

 

Fique o velho 2025, 

Que até foi abençoado,

Limpo, de rosto absinto,

Sem preconceito de passado.

 

Que venha de manso, sem pressa,

Em voo de ave e de luz,

Pôr fim ao ódio depressa

Que ao abismo nos conduz.


José António de Carvalho, 01-janeiro-2026

Foto "Pinterest"




segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Conto "O Invisível da Arte"


O Invisível da Arte

Chamava-se Margarida. Sonhava com primaveras e margaridas brancas. À noite, escrevia poesia no aconchego do quarto, na mesa junto à janela com vista para o pequeno rio, onde o luar refletia por entre a vegetação. Durante o dia, moldava ideias e sentimentos com as mãos, pincéis, tintas e telas. Depois, dava tempo ao tempo para que as suas obras ganhassem nome, pois só o tempo consegue aprimorar a personalidade e o sentimento de uma criação.

Margarida nunca expôs os seus quadros nem publicou ou leu os seus poemas em público. A sua obra era conhecida apenas pelo seu gato, que, com as garras, ia dando "pinceladas" em algumas telas sem vidro de proteção, e por mim, que entrei na sua casa à noite enquanto ela dormia. Se não fosse assim, nunca teria tido oportunidade de saber o que ela fazia ou de conhecer a sua arte. Era uma curiosidade que crescia em mim: "como é que ela preenchia o tempo?". O gato dela, claro, nunca me diria nada.

A casa da Margarida era pequena, toda transformada em atelier e sala de exposição. Lá pontificavam os quadros, algumas esculturas, livros, tudo etiquetado. Também havia folhas A4, em molduras simples, com poemas e textos seus. 

Ela escrevia todas as noites, às vezes pela madrugada dentro, com os joelhos e os cotovelos frios, mas o coração quente. O silêncio dava-lhe a serenidade e a luz necessárias.

— Só as mãos e as tintas, não me bastam. Preciso das palavras. — Dizia Margarida para si mesma.

E deixou gravado numa folha de papel:

"NO RIO DA MINHA VIDA
TIVE DIAS CONSUMIDOS
MERGULHADA NOS MEUS SONHOS.
NUNCA FORAM REPETIDOS."

Continuou a escrever até ficar cansada e, por fim, deixou-se vencer pelo sono.

Algum tempo depois, já ela deveria dormir o primeiro sono, entrei na sua casa disfarçado de fantasma. O gato ronronava na sua almofada. A respiração dela era forte e pausada, em paz, tomada pelo cansaço.

Naquele dia não pintou nem escreveu muito — talvez não fosse dia de grande inspiração. Peguei em três quadros que estavam na parte inferior da estante e duas molduras com poemas. Pensei: "Ela não vai notar a falta". E saí cuidadosamente pela janela.

Decidi levar aquelas obras a alguém que as pudesse analisar e aquilatar da importância artística, para que pudessem, ou não, ser dadas a conhecer ao público.

No dia seguinte, ainda antes das dez horas, pus-me em frente à porta do museu a aguardar a abertura, acompanhado pelos quadros e pelas molduras com poemas. Poucos minutos depois das dez, a porta abriu-se. Pedi para falar com a pessoa responsável. A senhora respondeu-me com simpatia:

— Sou funcionária da Câmara Municipal, chamo-me Rosa Rio, mas trate-me só por Rosa. Trabalho aqui há mais de quinze anos. Pode falar comigo. O que pretende?

— Bem... o assunto pode parecer um pouco estranho, mas terei de lhe contar a história muito resumidamente. — E continuei:

— Uma senhora minha amiga pinta quadros e escreve poesia e prosa. Todavia, guarda tudo em casa. Vive quase sempre fechada com o seu gato e não se expõe nem mostra os seus trabalhos a ninguém. A casa dela é um atelier e um autêntico salão de exposição. Também não é dada a convívios e praticamente não comunica com ninguém. As compras sou eu quem as faz. Ela faz uma lista das compras e envia-me pelo telemóvel, e eu entrego-lhas em casa. A nossa comunicação faz-se essencialmente por mensagens ou e-mails. Praticamente não falamos de viva voz.

A minha curiosidade foi crescendo ao longo do tempo. Mas, ontem à noite, depois de ter a certeza de que ela dormia, entrei por uma janela, que deixa sempre semiaberta para a circulação do ar, disfarçado de fantasma para não ser reconhecido. O meu espanto, quando deparei com tal galeria de arte. Fiquei boquiaberto. Mas como não sou técnico, apenas um apaixonado pela arte, trago-lhe estes trabalhos para aquilatar da sua importância artística.

A senhora do museu respondeu:

— Bem, eu também não sou perita em arte. Mas, além do "amor à camisola", como se costuma dizer, tenho conhecimentos adquiridos ao longo da vida prática aqui no museu, da convivência com o Mestre, o fundador, e também de algumas formações que fiz nesta área. Deixe-me lá ver o que traz, porque agora também fiquei curiosa. - esclareceu D. Rosa.

— Vamos retirar dos sacos com cuidado para não danificar. — Pedi-lhe.

Ela colocou com cuidado os quadros encostados à sua mesa, recuou dois ou três passos, pôs a mão a segurar o queixo e, com ar muito sério, pôs-se a observar. Passados dois ou três minutos, perguntou:

— Acha que os quadros que lá ficaram têm mais ou menos qualidade do que estes? 

— A pergunta é de difícil resposta. Trouxe estes porque os admiro e estavam num lugar em que acho que ela não vai dar pela falta até logo à noite. Não posso trazer mais. Penso que ela tem lá mais bonitos e menos bonitos, dependendo do gosto de quem os vê.

— Muito bem. Nesse caso vamos pensar na possibilidade de os expor numa das nossas salas. O senhor vai pedir-lhe autorização para trazer as melhores obras. - disse a D. Rosa.

— O melhor será falarmos ambos com ela. Se for eu a dizer-lhe nem acreditará ou não valorizará, e tudo acabará aí. Se a D. Rosa for lá comigo falar-lhe, talvez ela seja menos irredutível. Mas nada é garantido. — Sugeri.

— Podemos ir logo, no final do meu trabalho aqui no museu. Mas não sei onde mora a Margarida.

— Passarei aqui pelas 18h00. Eu levo a D. Rosa. Depois deixo-a novamente aqui.

— Combinado. Pode ser um bocadinho depois das 18h. Certo?

Cheguei ao museu antes das 18h00. Aproveitei para fazer uma pequena visita e rever a obra do Mestre.

Pelas 18h15 saímos do museu rumo à casa da Margarida. Foram cerca de dez minutos de viagem, aproveitados para anteciparmos cenários de reações possíveis.

Ainda não tínhamos chegado e já avistávamos, na varanda, uma tela no cavalete e a sombra da Margarida por detrás.

— Está na varanda a pintar. Como faremos para levar as peças? — Perguntei intrigado.

—  Esse problema já sabia que o iria ter, quer fosse com ela acordada ou a dormir. Não se preocupe. — Acrescentou a D. Rosa para me acalmar.

— Chegámos. Este é o mundo dela. — Apresentei o espaço com mão.

— Um lugar fora do bulício do centro, mas com a aura de um pequeno paraíso. — Disse D. Rosa. 

Ainda algo longe de Margarida para lhe falarmos, ela antecipou-se, surpreendendo-nos:

—  Não trazem os quadros das pinturas e dos poemas? — Perguntou.

— Oh, que ela deu pela falta das peças. — Balbuciei para a D. Rosa. — O que faço agora?

— Agora... falamos com ela, e depois traz-lhe as obras. — Sugeriu Rosa. E continuou:

— Vejo que se sente desconfortável no meio de tudo isto. Deixe estar, que eu falo com a Margarida.

— Boa tarde Margarida.

— Boa tarde D. Rosa e Sr. João. Foi estranho o desaparecimento das obras, talvez algum fantasma as tenha levado, tal como a visita que me fazem. O que desejam?

— Bem, sem rodeios, vou direta ao assunto: O Sr. João levou cinco obras suas para serem avaliadas com a expectativa de as expor. Achei-as boas. E, do ponto de vista artístico, há interesse em serem mostradas a quem gostar de arte. Todavia, são necessárias mais obras para uma exposição. Podemos ver as que tem? — Prosseguiu Rosa.

— Farei uma breve análise para escolher as que entenda que devem ser expostas. Prometo, desde já, que teremos, como sempre, todo o cuidado para não danificar os trabalhos.

 E acrescentou: — Relativamente à sua vontade de não se expor, teremos o maior gosto em que esteja presente, pelo menos, na abertura ou no fecho da exposição. Mas respeitaremos a sua decisão de querer ir ou não. — Concluiu Rosa.

— Colocadas as coisas dessa forma tão linear, aceito. Só lhes posso ficar agradecida, e feliz pelo interesse em expor os meus trabalhos. Mas já não posso dizer o mesmo em relação à minha presença. Desculpem-me. Mas não irei. — Sentenciou Margarida.

Apesar de preparados para duas respostas negativas, depois de ter ouvido, surpreendentemente, positiva a primeira, autorizando que se expusessem os trabalhos, a segunda deixou no ar um espectro de desânimo e surpresa. Mas não o suficiente para nos desviarmos do rumo traçado.

— Quer selecionar as obras para levarmos, por favor? Enquanto as escolhe, eu coloco-as no carro. — Sugeri a D. Rosa.

— Vamos, vamos entrando, por favor. Fiquem à vontade. — Disse Margarida, que seguiu na nossa frente.

D. Rosa começou de imediato a selecionar os quadros, e eu levava-os para o carro sem demoras.

Pouco mais de meia hora passara, e o carro já tinha a mala e os bancos traseiros apinhados. Alguns quadros mais pequenos foram colocados na parte da frente, onde a D. Rosa teve de "lutar" para caber junto deles.

Muito rapidamente despedimo-nos da Margarida, demostrando uma grande vontade de a ver na exposição dos trabalhos dela.

— Margarida, sem a querer estar a forçar a nada, a decisão é sua, será uma enorme satisfação vê-la na exposição dos seus trabalhos, que vamos preparar com todo o gosto, para abrir ao público, extraordinariamente, de segunda-feira a uma semana, e encerrar no domingo. Até um dia destes. — Concluiu D. Rosa.

— Obrigado e até breve. — Agradeceu Margarida, acenando com a mão.

Os dias passaram rápido com as habituais rotinas, acrescidas pela preparação da exposição. Algumas vezes, também tive de ajudar a D. Rosa. Para a Margarida e para o seu gato, os dias passaram de forma mais lenta, devido aos espaços que ficaram vazios na sua casa.

Tal como havia sido combinado com Margarida, a exposição não fora anunciada em lugar nenhum. Contudo, D. Rosa, aqui e ali, deixava escapar a quem visitava o museu que andava muito atarefada porque estava a preparar uma exposição "que não expunha". Essa frase ficava no ouvido e aguçava a curiosidade dos visitantes.

Pouco faltava para as 10h00 da segunda-feira. Apenas eu e a D. Rosa estávamos no museu, ela olhou à sua volta para confirmar que tudo estava em ordem e colocou um pequeno volume de catálogos do evento numa mesa junto à entrada.

Assim que confirmou que tudo ficou pronto, D. Rosa destravou as duas portas, abrindo-as quase em simultâneo, e em tom de anúncio televisivo, disse:

— Faço a abertura do museu nesta segunda-feira e dou por inaugurada a exposição de pintura e poesia intitulada: "O Visível do Invisível da Arte", da pintora e poetisa Margarida.

Como era a única pessoa ali presente, bati palmas e desejei sucesso para o evento.

A manhã passou com apenas quatro visitantes, que, ao saberem da exposição, fizeram questão de a ver. A parte da tarde trouxe mais gente, o que é habitual segundo a D. Rosa.

O número de visitas ao museu foi crescendo a cada dia, e os visitantes mostravam-se satisfeitos, pelo que se percebia das conversas à saída. A sala onde a obra da Margarida estava exposta tornou-se passagem "obrigatória".

Na sexta-feira, foi necessário fotocopiar catálogos. O sábado teve bastante mais visitas — chegaram a estar no interior da exposição mais de uma dezena de pessoas, por alguns períodos —. O domingo foi mais calmo do que o sábado, mas mais concorrido do que a sexta-feira. Muitos dos visitantes eram estrangeiros e emigrantes portugueses. Nos últimos dias, vários quadros de Margarida ficaram sob reserva para serem vendidos, caso ela autorizasse.

Perto da hora de encerramento, uma senhora entregou um envelope à D. Rosa, e deu-lhe os parabéns pela organização e pela beleza das obras.

— Estou a reconhecê-la agora. Desde sexta-feira que tenho andado tão atarefada que nem presto a devida atenção às pessoas. Peço desculpa. Agradeço-lhe muito as suas palavras. Como está a amiga poetisa Joana Ramo? É para reservar algum quadro? — perguntou D. Rosa.

— Estou bem. Obrigada. A próxima semana será certamente mais tranquila para si. Não, não é para reservar, vim apenas entregar-lhe um envelope que uma amiga me pediu. Peço-lhe desculpa, tenho de ir. Obrigado por tudo D. Rosa. — Concluiu a poetisa.

D. Rosa colocou o envelope na gaveta, mas ficou curiosa. Virou-se para mim e perguntou:

— Ainda estão muitas pessoas na exposição "O visível do Invisível"?

— Penso que apenas quatro pessoas. — Respondi.

— Bem... vou começar a arrumar. Pode ser que também se arrumem. — Disse D. Rosa, a sorrir. 

Pegou no envelope, ansiosa, e começou a ler:

"Vi com os meus olhos, algo cansados da tela da vida e das cores que nem sempre a pintam, que há momentos que ficarão para sempre: os gestos simples das pessoas, os sorrisos e expressões espontâneas de carinho e afeto. É na singeleza e simplicidade que os olhos vislumbram as cores do conforto da gratidão e do amor.

Vi tudo isso estampado nos olhos dos visitantes que enchiam a sala. Senti-me feliz no meio das pessoas, na sala que denomino por:  "Sala Am'Arte".

Muito obrigada a todos os visitantes. Muito obrigada, D. Rosa e Sr. João. Um bem-haja a todos.

Margarida."

D. Rosa deixou-se vencer por um misto de sentimentos: estupefação, curiosidade e comoção. E falou em tom reprimido:

— Sr. João, Sr. João, ela esteve aqui. Temos que perceber quando e como.

— Ela quem? — Perguntei.

—  A Margarida. Temos de puxar pela memória ou pelas imagens da videovigilância. — Disse apreensiva, D. Rosa.

Decidimos ver as gravações dos últimos três dias. O domingo não revelou nada. Sábado de manhã também não. Mas, ao ver as da tarde de sábado, a D. Rosa quase gritou:

— Pare, pare... é ela.

Voltámos atrás e lá estava, vestido comprido verde com pequenas margaridas brancas, chapéu de aba larga a cobrir-lhe parte do rosto e óculos escuros. Ao entrar, fez uma vénia com a cabeça ao passar pela D. Rosa, escondendo-se ainda mais. Usou o chapéu como um escudo para se proteger, caminhou pela sala, ouviu comentários, sorriu discretamente. Parecia feliz.

— Não há dúvida que é a Margarida. Pareceu-me mais alta. — Disse D. Rosa.

— Efeitos do vestido comprido e do salto dos sapatos. Mas muito elegante. — Acrescentei.

— Agora teremos de falar com a Margarida, para ver se quer vender os quadros reservados.

— Vamos a casa dela amanhã?  — Perguntei.

— Sim. Amanhã é a minha folga. — Devolveu D. Rosa.

Na segunda-feira, à hora marcada, fomos à casa da Margarida. Estava tudo fechado, o gato não estava na cadeira de baloiço, e havia um papel no vidro da porta: "Correspondência ou assuntos - Dirija-se ao balcão da Piscina Municipal".

No balcão, a funcionária entregou um envelope a D. Rosa. Dentro, uma carta que dizia:

"Agradeço-lhes muito, D. Rosa e Sr. João. Ausento-me por tempo indeterminado.

Relativamente à minha obra deverão consultar o meu advogado, cujo cartão para contacto se encontra junto”.

A D. Rosa, com o seu desembaraço habitual, pegou logo no telemóvel e ligou para aquele número. A funcionária do escritório, informou-a da doação de toda a obra a favor do museu, cuja documentação já estava assinada pela Margarida e Câmara Municipal. 

— Oh... Que grande e agradável notícia. − Exclamou D. Rosa, de lágrimas nos olhos.

Abraçámo-nos emocionados, celebrando a Arte, a Cultura, e sobretudo, o talento, a generosidade e a discrição de Margarida.

A sala dedicada à sua obra passou a ter o nome "Sala AmArte".

FIM 


                        

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Poema "FLORES DE OUTONO"


FLORES DE OUTONO

Há flores com cores,
flores com significados,
flores com perfume,
flores com alma,
flores com sentidos.

As cores desafiam o pó do outono,
o perfume aquece a brisa fria,
a alma floresce no silêncio da estação.

Flores que caem, flores que ficam,
outras que preenchem o canteiro,
flores que sussurram histórias ao vento…

Em pleno outono,
são mais as que se foram do que as que chegam.

E mesmo quando o outono leva tudo,
há flores que resistem,
que guardam a memória da primavera.

E assim continuará, inverno fora:
sempre mais idas do que chegadas.
E não há regressos.

Os regressos são pó.
O pó apaga-se nos olhos da chuva fria.

José António de Carvalho, 31-outubro-2025
Foto  "Pinterest"






sábado, 11 de outubro de 2025

Poema "GOTEJO INTERIOR"


GOTEJO INTERIOR

Carrego dias longos
e árvores cansadas,
campos dourados
que ainda sonham junho,
começos e fins de dias
de melodias calmas,
meses e vidas
que escorrem por dentro.

Ainda me movem
as ilusões que vejo
de olhos fechados,
e a tua silhueta
a fugir na pele imóvel das águas
de mares secretos.

A liberdade,
só em sonho floresce
e nos inebria,
em versos singelos,
desamarrados de dogmas,
curados da mentira.

Já não sei se o que sinto
é água ou dor,
ou o alvoroço
do desmaio das flores
a murchar no gotejo do tempo.

Mas sei que os cravos
são almas livres,
e que as rosas
são brisas perfumadas.

Sei que o respeito e o sorriso,
o olhar e o silêncio,
a mão e o seu calor,
são centelhas de amor.

José António de Carvalho, 11-outubro-2025





segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Poema "SONHOS DE OUTONO"


SONHOS DE OUTONO

A luz nas tardes de outono
vai-se esvaindo na ternura
dum singelo sonho ou sono,
a quebrar a desventura.

Mas a noite transfigura-o
num plácido mar de gelo,
na mão o temor segura-o
por longas noites de apelo,

E ela virá deslumbrada,
do fim do tempo de ócio
na sua altiva chegada
para o próximo equinócio...

Minha primavera amada
quantos sonhos tu nos dás,
ideal de alma cansada
que busca o belo na paz.

José António de Carvalho, 29-setembro-2025
Foto "Pinterest"







quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Poema "OUTONO POETA"


OUTONO
POETA

O poeta vive a natureza.
Naturalmente, se apaixona
por toda a sua beleza.
Paixão que não abandona.

Vive a viajar nos astros
sem o pé sair da terra,
a gastar sapatos gastos
num sonho que não encerra.

No Inverno canta a neve
na ânsia que o frio passe,
e nos versos sempre pede
que a primavera o abrace.

Esse amor à primavera
é sentimento tão forte 
que o leva pela quimera
sempre fugindo da morte.

Tem o seu  auge no verão,
mas em si já tudo chora
p'la vinda doutra estação,
a que no próprio mora.

Ventos leves vão soprando
na alma, de si, entristecida,
e o outono vai chegando
empurrando-o mais na vida.

José António de Carvalho, 24-setembro-2025
Foto "Pinterest"




domingo, 21 de setembro de 2025

OPINIÃO: "EUROPA DÁ UMA "ABADA" A ZERO"



EUROPA DÁ UMA "ABADA" A ZERO
AOS GRANDES BLOCOS GEOPOLÍTICOS EXISTENTES

Vinha do trabalho, porque também trabalho ao domingo, no carro, a ouvir as notícias das 18h  da Rádio Renascença (RR), e fiquei a saber que Portugal e outros países, reconheceram ou vão reconhecer nos próximos dias o Estado da Palestina. E fizeram-no ou vão fazê-lo, precisamente, nos Estados Unidos, onde se realizará a conferência da ONU. 

Não importa quem fez a declaração em primeiro lugar (desta vez, parece que foi Portugal), a Espanha fê-lo há um ano atrás, ou quem fará no futuro, importa que sejam muitos estados, e que a Europa deu um primeiro passo de firmeza e verticalidade nos valores da ordem mundial: A PAZ E A LIBERDADE.

Ora, a posição que agora está a ser tomada por vários países da UE, na minha opinião de mero cidadão comum, atira o EUA para o desconforto da ambiguidade da sua posição, ao defender o país invasor (Israel) no médio Oriente, e  na guerra da Europa parece que apoia a Ucrânia, mas não se declara oposição prática à Rússia. Ou será que apoia no seu íntimo, e de forma não declarada, "os invasores" nas duas situações? Ainda mais gritante é o que acontece com a posição da Rússia, que defende os invadidos da Palestina e, ela própria, faz guerra para se impor na Ucrânia.

Cá para mim, Rússia e EUA, podem até ter um acordo secreto para um "fechar de olhos" ao que um e o outro faz, no Médio Oriente e na Ucrânia, para que não hajam grandes consequências práticas na relação entre os dois países e nos seus objetivos.  

Na prática, e ao largo de tudo isto, beneficia a China, com o enfraquecimento e a dispersão de recursos e atenções das potências que economicamente lhe podem fazer frente.

A posição portuguesa e europeia pode não ter grandes efeitos práticos, mas não deixa de ser a posição mais sensata, mais humana, e a única que é linear e aceitável: O FIM DA GUERRA ONDE QUER QUE HAJA GUERRA.

Por tudo isso, sejam os governos da cor política que forem, o mesmo em relação a partidos e organizações ou, até mesmo, o cidadão comum, devemos, penso eu, rever-nos na validação da posição europeia pela PAZ.

Um abraço pela PAZ.
Foto net "segurilatam.com"