Sonhos e Pensamentos - Poesia - José António de Carvalho
REVELO-ME ATRAVÉS DE SIMPLES VERSOS (Reservados os direitos de autor)
domingo, 21 de junho de 2026
Poema "O POEMA QUE NÃO ESCREVO"
O POEMA QUE NÃO ESCREVO
Queria escrever um poema,
Mas não tenho tempo para o fazer.
E ele precisa de tempo.
Tempo para assentar sílabas,
Penetrar na nascente das palavras,
Tender a lira íntima até secar a emoção,
Escavar a fresta do rochedo até à humidade
Da magia das imagens que deslumbram.
Não sou capaz. Não tenho tempo.
Vou dormir com este aperto no peito
De não escrever o poema.
Aquele poema que me fez sonhar,
Ou sorrir, chorar, voar, existir;
Mas que nunca soube escrever.
Também nunca alguém o iria ler.
Reflexão "PODIA ESTAR CALADO. AFINAL, É DOMINGO À TARDE..."
PODIA ESTAR CALADO. AFINAL, É DOMINGO À TARDE...
Nada mais falso do que a frase
tantas vezes repetida: “Sou feliz como sou. O que os outros pensam não me
importa para nada.” É falso. Profundamente falso.
Vivemos todos em sociedade, mesmo
quando insistimos em viver isolados. Mais cedo ou mais tarde, para existir,
precisamos de sair do nosso casulo. E, quando saímos, confrontamo‑nos com
notícias, conversas, atitudes e acontecimentos que nos mostram que estamos
longe dos outros — e, perante esse desconforto, agarramo‑nos ao argumento
fácil: “Os outros é que estão mal. Eu estou certo. Continuarei a ser como
sempre fui.”
Mas esta visão de nós, dos outros
e da vida não nos leva a lado nenhum. Fecha‑nos. Encolhe‑nos. Torna‑nos mais
sós e menos capazes de ver a realidade do mundo.
E se isto é verdade para cada um
de nós, é também verdade para quem lidera. Basta olhar para os erros dos
líderes das grandes potências — e de tantos outros países. Vivem fechados sobre
o seu ego, sobre o seu interesse imediato e sobre o círculo que os rodeia.
Assim se cria um fosso cada vez maior entre ricos e pobres, fortes e frágeis,
informados e ignorantes.
Quando o mundo funciona assim,
não admira que quem está no lado desfavorecido deseje subir ao patamar dos
favorecidos. E daí nascem a corrupção, os favores, as pressões, o uso de
influência, as guerras. Porquê?
Porque vivemos num sistema onde o
dinheiro e o poder dominam tudo. O ser humano deixou de ser o centro. O ser
humano voltou ao antigamente e é, cada vez mais, instrumento.
O dinheiro compra tudo —
inclusive poder. O poder decide. E quase sempre à custa do mesmo grupo: os
contribuintes, aqueles que pagam, sustentam, suportam e raramente são ouvidos.
Talvez o primeiro passo para
mudar isto seja reconhecer o óbvio: ninguém vive sozinho, ninguém se constrói
sozinho, ninguém se salva sozinho. A relação com o outro não é uma ameaça — é a
única possibilidade de futuro.
Bom domingo.
sábado, 6 de junho de 2026
Marcha de Santo António – 2026
Marcha de Santo António – 2026
Quadras a concurso organizadas em Marcha Popular.
As festas de Santo António voltam a iluminar Famalicão com o brilho que só a tradição sabe acender. Entre o som das marchas, o perfume dos manjericos e a alegria que percorre as ruas, nasceram estas quadras — algumas delas distinguidas com menção honrosa no concurso deste ano.
Agradeço ao Orfeão Famalicense, que celebra 110 anos de existência, e à Câmara Municipal de Famalicão, pela organização deste concurso que mantém viva a nossa identidade cultural e dá voz aos que continuam a escrever para a festa.
Reunidas agora numa versão organizada e evolutiva, estas quadras formam uma marcha completa: começam na cidade que desperta, seguem pela folia do feriado, atravessam o baile popular, celebram o orgulho famalicense e regressam à emoção que une o povo em cada junho.
Que estas quadras continuem a ecoar nas ruas, nos arraiais e nos corações.
José António de Carvalho
Marcha
Pelas ruas da cidade há muito corre o rumor: Santo António, na verdade, é mestre do bom humor.
Refrão Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.
Pecado é trabalhar no dia de Santo António, vamos lá todos dançar nestas festas património.
No dia das Antoninas pecado é trabalhar, faço férias pequeninas para poder festejar.
Na terra é feriado e veio mesmo a calhar, se o santo é festejado, pecado é trabalhar.
Refrão
Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.Alegria p’ras mais novas, ainda mais para as crescidas; é aqui que se dão provas, rapazes e raparigas.
Morta de tanto bailar e a noite ainda a meio; agora já tenho par, vamos dormir no centeio.
No centeio vou ficar, não sei se chego ao meio; se lá conseguir entrar, pois das bordas estou cheio.
Espero entrar na folia e arranjar um casamento; prometo que o levaria para o teu próximo evento.
Santinho, não leve a mal, se a quadra sai mais faceira; é costume no arraial, tudo isto é brincadeira.
Refrão
Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.
No relento vou ficar recuperando energias; e voltarei p’ra dançar e queimar mais calorias.
Santo António é do povo e tem grande coração trazendo vida de novo à nossa Famalicão.
Refrão
Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.
Guarda, Santinho, a folia, grande noite a recordar... dá-me saúde e alegria, para o ano quero voltar.
O Santo António chuvoso vem o verão anunciar; vai ser mais delicioso com guarda-chuva a abrigar.
Há muito corre o rumor que o Santinho vai contente lá no alto do seu andor a saudar toda esta gente.
Convidei prás Antoninas belas rosas do jardim, são meninas bailarinas que dançam até ó fim.
Vieram dos quatro cantos do país para dançarem, nas ruas dos mil encantos fazem juras de voltarem.
No dia treze de junho há séculos a contar Vieira de voz em punho quis Santo António louvar.
Refrão
Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.
Ver as ruas tão floridas, com gente linda a sorrir, apaga a dor das feridas que a vida teima em abrir.
E nesta festa em união, o povo sábio em viver, de pé leve e coração, lá consegue renascer.
Há anos que se trabalha no f’riado do concelho; Santo António muito ralha, não lhe adianta fazê-lo.
Ai Santinho, estou sem ar e a noite ainda vai criança, a dançar perdi meu par; o que fazer da aliança?
Inspira-te Santo António e faz lá a tua quadra; incentiva o matrimónio... verás que não custa nada!
És feliz com o menino nesse colo acolchoado, mas não é esse o destino de muito pobre coitado.
Ligam o treze ao azar por esquecerem o dia que Santo António vem dar razões de tanta folia.
Canta e dança alegremente, sejas jovem ou nem tanto, contagia toda a gente na festa do nosso Santo.
As pombinhas acordaram na manhã do dia treze e bem cedo festejaram na lagoa da Devesa.
Refrão
Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.
domingo, 24 de maio de 2026
Poema "NA ESPERANÇA DE SEGUIR"
Mudamos sem dar por isso,
como água a fluir no rio;
a vida empurra, dobra, inclina,
e o corpo cede ao desvio.
Vestimos sempre novas peles,
tentamos salvar o coração;
umas são nossas, outras não,
mas fingimos para proteção.
O espelho mente de leve,
com rude ternura ou crueldade;
mostra sombras do que fomos
e afasta-nos da verdade.
E assim seguimos vivendo
entre o que somos e parecemos:
a alma cedo embala na deriva,
o mundo exige — e cegos cedemos.
No limiar da ilusão
erguemos casa no assombro;
somos quem somos… e o resto
dissolve-se dentro de nós:
entre o que fomos
e o que sonhávamos ser
e que nunca seremos.
José António de Carvalho, 24-maio-2026
terça-feira, 5 de maio de 2026
Poema "NO REGAÇO DE MAIO"
No regaço do
mês de maio,
desdobra-se um
manto branco
que se estende no calendário
como um jardim
de cravos de oiro
regado pelo
canto das andorinhas.
Do seu voo
nascem estrelas,
da cor das
velas das barquinhas;
e nas águas
doces dos corações,
onde a ternura
alimenta as raízes,
cantam meninos
e meninas
à Mãe de todas
as mães
as suas orações
pequeninas.
E da brisa da
sua voz inocente,
vão esmaecendo
lentamente
as sombras das
armas das nações.
domingo, 3 de maio de 2026
Poema "MÃE" – Dia da Mãe, 03-maio-2026
MÃE – Dia da Mãe, 03-maio-2026
Mãe que abraça,
Mãe que chama,
Mãe que acende
a luz da alma.
Mãe que embala,
Mãe que aquece,
Mãe que sara
o que entristece.
Mãe que planta,
Mãe que guia,
Mãe que luta
dia a dia.
Mãe que ampara,
Mãe que espera,
Mãe que guarda
a vida inteira.
Mãe que sente,
Mãe que chora,
Mãe ferida,
Mãe que adora.
Mãe menina,
Mãe mulher,
Mãe que ensina,
Mãe que é…
Sempre calorosa,
mesmo quando o mundo pesa.
Sempre firme,
pela ternura que traz acesa.
Nem a idade a verga
nem a fragilidade a para;
serás sempre a Mãe,
e nada nos separa.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Poema "AGORA"
Quando tudo se faz breve,
um ser quase por não ser,
o que temos não nos serve;
e o que está por suceder
crê-se que há-de valer.
Se o passado já passou,
quem ao agora não liga
e ao futuro se entregou,
saiba que ele até castiga
quem no desejo se abriga.
Que se aprenda a bem viver
no instante que se revela,
não só no que há-de ser
nem na memória tão bela,
mas no agora que interpela:
Se a vida passa a correr,
não a deixes escapar,
aprende a nela viver
e com o tempo lutar
p’lo agora, que é o lugar.
sábado, 18 de abril de 2026
Poema "CRAVO VERMELHO"
CRAVO VERMELHO
Era a esperança,
o cerne do sonho,
a alma do corpo
em sangue rubi.
Nascido em abril,
abriu-se, floriu,
numa dança viva
tecida pelas mãos.
Era cor de aliança,
luz erguida,
abrindo horizontes
nas fábricas,
nos campos, nas cidades,
nos montes —
e nos olhos da vida,
nascia um novo dia.
Iluminava paisagens
agitadas pelo vento.
Cantaram papoilas
no ventre das searas,
grávidas de imagens,
de sonhos e dores
de um país que acorda.
O negro da espera
esfumou-se nos céus,
abrindo uma esfera
de múltiplas cores:
astros de sonho,
memória viva
deste povo —
pobre
e nobre.
Pintura "Pinterest"
sábado, 7 de março de 2026
Poema "A UM CARVALHO"
A UM CARVALHO
Ele continua.
Escondeu-se,
perdeu as folhas.
No recato do sossego
sofreu o frio da dor
insuportável,
o vazio sem cor.
Mas nas suas veias
sempre correu
lentamente e a fluir,
a esperança
em amor.
As raízes são fortes,
são lembranças
e alimento
de quem o plantou,
de quem passou,
mas vive.
Olho para ele e vejo
o presente e o futuro,
o perpetuar da vida
naquilo que desejo:
em mim,
em ti,
em todos nós.
José António de Carvalho, 07-março-2026
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Poema "PRIMAVERA"
Fechei a porta ao tempo
da escuridão dos dias.
Abri a minha alma
às promessas de luz,
de sonho e de vida
nos ramos das árvores.
Deixo que o sol
me ilumine os olhos,
faíscas claras
no bulício das águas.
Como precisava
que chegasse o momento…
Afasto-me da porta.
Embriago-me de primavera.
José António de Carvalho, 22-fevereiro-2026

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Poema "ANIVERSÁRIO"
ANIVERSÁRIO
Se houvesse um
sopro,
palmas, centelhas de luz…
Um cântico de
alegria
a saudar a vida.
Se houvesse magia
e o anúncio da primavera,
família em
volta,
em calorosa harmonia.
Se Deus o
tivesse querido,
bastaria operar
um milagre dos antigos.
Estarias aqui,
no teu aniversário,
com família e amigos,
recebendo
parabéns
e abraços fraternos.
Agora, apenas
memórias e orações,
saudades vivas nos corações.
José António de Carvalho, 16-fevereiro-2026
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Reflexão: "A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX"
Texto para todos — Mas particularmente para aniversariantes.
A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX
A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX
Penso na vida como um velho
relógio de ponteiros, desses que indicavam o dia, a semana, o mês. Um relógio
ultrapassado, mas ainda muito apreciado pela sua beleza e delicadeza.
Penso, também, na forma estranha
como o tempo acelera à medida que avançamos.
Aos dez anos, a vida
arrasta-se, quase imóvel, como o marcador do mês — olhamos, voltamos a olhar,
e nada parece ter mudado.
Aos vinte, avança com a lentidão
confortável do indicador da semana. O tempo ainda é largo, ainda há espaço para
tudo. Chega a cansar olhar para o relógio sempre na mesma hora.
Aos trinta, o tempo ganha
cadência. Já não o seguimos com os olhos, mas com os sentidos; confiamos nele.
O dia passa como o ponteiro das horas: constante, previsível, quase silencioso.
Apenas acreditamos que passou depois de ele já ter passado.
Aos quarenta, o dia passa como
passam os bons dias, com manhãs, tardes, fins de tarde e boas noites: nem
depressa, nem devagar, apenas como como deve ser.
Aos cinquenta, o dia já nos
engana. Entra num carro a diesel: começa devagar, quase hesitante, mas, quando
damos por isso, já está a chegar ao destino.
Aos sessenta, o dia precipita-se.
Vem à velocidade de um carro de Fórmula 1. Vemos a forma, adivinhamos a cor, e
já passou — ficam o fumo, o cheiro a borracha quente dos pneus e o deslocamento
do ar. Ficamos ainda a tentar perceber o que aconteceu, e entretanto passa uma
semana, ou um mês.
Aos setenta, surge como a
surpresa de um avião supersónico. Vemo-lo e assustamo-nos; rodamos o pescoço,
tentamos segui-lo com o olhar, e só depois chega o som — de outro Natal que
passa — e comovemo-nos.
Foto do Instituto Português de Relojoaria
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Poema "VALE A PENA"
VALE A PENA
Vale a pena resistir
À mutilação do sonho,
Ao fantasma do fracasso.
Pegar as rédeas e ir
À procura de um espaço.
Vale a pena analisar
Cada lágrima vertida,
Cada noite não dormida
Pela dor que quis ficar
No meu peito a macerar.
Vale a pena acreditar
Que o amor não morreu,
Não foi enterrado – vive…
No que sou e onde estive,
No que resta caminhar.
José António de Carvalho, 27-janeiro-2026
Foto da minha autoria
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Poema "ENCANTO"
ENCANTO
O encanto mora
Em cada segundo,
Em cada hora…
E em cada dia
Em que a tarde cai,
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Poema "2026, SEM PRESSA"
2026, SEM PRESSA
Não digo mal de um velho
Que andou na corda da vida
E que para mim é espelho
Do que quero viver ainda.
Fique o velho 2025,
Que até foi abençoado,
Limpo, de rosto absinto,
Sem preconceito de passado.
Que venha de manso, sem pressa,
Em voo de ave e de luz,
Pôr fim ao ódio depressa
Que ao abismo nos conduz.
José António de Carvalho, 01-janeiro-2026
Foto "Pinterest"
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Conto "O Invisível da Arte"
O Invisível da Arte
Chamava-se Margarida. Sonhava
com primaveras e margaridas brancas. À noite, escrevia poesia no aconchego do
quarto, na mesa junto à janela com vista para o pequeno rio, onde o luar
refletia por entre a vegetação. Durante o dia, moldava ideias e sentimentos com
as mãos, pincéis, tintas e telas. Depois, dava tempo ao tempo para que as suas
obras ganhassem nome, pois só o tempo consegue aprimorar a personalidade e o
sentimento de uma criação.
Margarida nunca expôs os seus quadros nem
publicou ou leu os seus poemas em público. A sua obra era conhecida apenas pelo
seu gato, que, com as garras, ia dando "pinceladas" em
algumas telas sem vidro de proteção, e por mim, que entrei na sua casa à noite
enquanto ela dormia. Se não fosse assim, nunca teria tido oportunidade de saber
o que ela fazia ou de conhecer a sua arte. Era uma curiosidade que crescia em
mim: "como é que ela preenchia o tempo?". O gato dela, claro, nunca
me diria nada.
A casa da Margarida era pequena, toda
transformada em atelier e sala de exposição. Lá pontificavam os quadros,
algumas esculturas, livros, tudo etiquetado. Também havia folhas A4, em
molduras simples, com poemas e textos seus.
Ela escrevia todas as noites, às vezes pela
madrugada dentro, com os joelhos e os cotovelos frios, mas o coração quente. O
silêncio dava-lhe a serenidade e a luz necessárias.
— Só as mãos e as tintas, não me bastam.
Preciso das palavras. — Dizia Margarida para si mesma.
E deixou gravado numa folha de papel:
Continuou a escrever até ficar cansada e, por
fim, deixou-se vencer pelo sono.
Algum tempo depois, já ela deveria dormir o
primeiro sono, entrei na sua casa disfarçado de fantasma. O gato
ronronava na sua almofada. A respiração dela era forte e pausada, em paz,
tomada pelo cansaço.
Naquele dia não pintou nem escreveu muito —
talvez não fosse dia de grande inspiração. Peguei em três quadros que estavam
na parte inferior da estante e duas molduras com poemas. Pensei: "Ela não
vai notar a falta". E saí cuidadosamente pela janela.
Decidi levar aquelas obras a alguém que as
pudesse analisar e aquilatar da importância artística, para que pudessem, ou
não, ser dadas a conhecer ao público.
No dia seguinte, ainda antes das dez horas,
pus-me em frente à porta do museu a aguardar a abertura, acompanhado pelos
quadros e pelas molduras com poemas. Poucos minutos depois das dez, a
porta abriu-se. Pedi para falar com a pessoa responsável. A senhora
respondeu-me com simpatia:
— Sou funcionária da Câmara Municipal, chamo-me
Rosa Rio, mas trate-me só por Rosa. Trabalho aqui há mais de quinze anos. Pode
falar comigo. O que pretende?
— Bem... o assunto pode parecer um pouco
estranho, mas terei de lhe contar a história muito resumidamente. — E
continuei:
— Uma senhora minha amiga pinta quadros e
escreve poesia e prosa. Todavia, guarda tudo em casa. Vive quase sempre fechada
com o seu gato e não se expõe nem mostra os seus trabalhos a ninguém. A casa
dela é um atelier e um autêntico salão de exposição. Também não é dada a
convívios e praticamente não comunica com ninguém. As compras sou eu quem as
faz. Ela faz uma lista das compras e envia-me pelo telemóvel, e eu entrego-lhas
em casa. A nossa comunicação faz-se essencialmente por mensagens ou e-mails.
Praticamente não falamos de viva voz.
A minha curiosidade foi crescendo ao longo do
tempo. Mas, ontem à noite, depois de ter a certeza de que ela dormia, entrei
por uma janela, que deixa sempre semiaberta para a circulação do ar,
disfarçado de fantasma para não ser reconhecido. O meu espanto, quando deparei
com tal galeria de arte. Fiquei boquiaberto. Mas como não sou técnico, apenas
um apaixonado pela arte, trago-lhe estes trabalhos para aquilatar da sua
importância artística.
A senhora do museu respondeu:
— Bem, eu também não sou perita em arte. Mas,
além do "amor à camisola", como se costuma dizer, tenho conhecimentos
adquiridos ao longo da vida prática aqui no museu, da convivência com o Mestre,
o fundador, e também de algumas formações que fiz nesta área. Deixe-me lá ver o
que traz, porque agora também fiquei curiosa. - esclareceu D. Rosa.
— Vamos retirar dos sacos com cuidado para não
danificar. — Pedi-lhe.
Ela colocou com cuidado os quadros encostados à
sua mesa, recuou dois ou três passos, pôs a mão a segurar o queixo e, com ar
muito sério, pôs-se a observar. Passados dois ou três minutos, perguntou:
— Acha que os quadros que lá ficaram têm mais
ou menos qualidade do que estes?
— A pergunta é de difícil resposta. Trouxe
estes porque os admiro e estavam num lugar em que acho que ela não vai dar pela
falta até logo à noite. Não posso trazer mais. Penso que ela tem lá mais
bonitos e menos bonitos, dependendo do gosto de quem os vê.
— Muito bem. Nesse caso vamos pensar na
possibilidade de os expor numa das nossas salas. O senhor vai pedir-lhe
autorização para trazer as melhores obras. - disse a D. Rosa.
— O melhor será falarmos ambos com ela. Se for
eu a dizer-lhe nem acreditará ou não valorizará, e tudo acabará aí. Se a D.
Rosa for lá comigo falar-lhe, talvez ela seja menos irredutível. Mas nada é
garantido. — Sugeri.
— Podemos ir logo, no final do meu trabalho
aqui no museu. Mas não sei onde mora a Margarida.
— Passarei aqui pelas 18h00. Eu levo a D. Rosa.
Depois deixo-a novamente aqui.
— Combinado. Pode ser um bocadinho depois das
18h. Certo?
Cheguei ao museu antes das 18h00. Aproveitei
para fazer uma pequena visita e rever a obra do Mestre.
Pelas 18h15 saímos do museu rumo à casa da
Margarida. Foram cerca de dez minutos de viagem, aproveitados para anteciparmos
cenários de reações possíveis.
Ainda não tínhamos chegado e
já avistávamos, na varanda, uma tela no cavalete e a sombra da Margarida
por detrás.
— Está na varanda a pintar. Como faremos para
levar as peças? — Perguntei intrigado.
— Esse problema já sabia que o iria ter,
quer fosse com ela acordada ou a dormir. Não se preocupe. — Acrescentou a D.
Rosa para me acalmar.
— Chegámos. Este é o mundo dela. — Apresentei o
espaço com mão.
— Um lugar fora do bulício do centro, mas com a
aura de um pequeno paraíso. — Disse D. Rosa.
Ainda algo longe de Margarida para lhe
falarmos, ela antecipou-se, surpreendendo-nos:
— Não trazem os quadros das pinturas e
dos poemas? — Perguntou.
— Oh, que ela deu pela falta das peças. — Balbuciei
para a D. Rosa. — O que faço agora?
— Agora... falamos com ela, e depois traz-lhe
as obras. — Sugeriu Rosa. E continuou:
— Vejo que se sente desconfortável no meio de
tudo isto. Deixe estar, que eu falo com a Margarida.
— Boa tarde Margarida.
— Boa tarde D. Rosa e Sr. João. Foi estranho o
desaparecimento das obras, talvez algum fantasma as tenha levado, tal como a
visita que me fazem. O que desejam?
— Bem, sem rodeios, vou direta ao assunto: O
Sr. João levou cinco obras suas para serem avaliadas com a expectativa de as
expor. Achei-as boas. E, do ponto de vista artístico, há interesse em
serem mostradas a quem gostar de arte. Todavia, são necessárias mais obras para
uma exposição. Podemos ver as que tem? — Prosseguiu Rosa.
— Farei uma breve análise para escolher as que
entenda que devem ser expostas. Prometo, desde já, que teremos, como sempre,
todo o cuidado para não danificar os trabalhos.
E acrescentou: — Relativamente à sua
vontade de não se expor, teremos o maior gosto em que esteja presente, pelo
menos, na abertura ou no fecho da exposição. Mas respeitaremos a sua decisão de
querer ir ou não. — Concluiu Rosa.
— Colocadas as coisas dessa forma tão linear,
aceito. Só lhes posso ficar agradecida, e feliz pelo interesse em expor os meus
trabalhos. Mas já não posso dizer o mesmo em relação à minha presença.
Desculpem-me. Mas não irei. — Sentenciou Margarida.
Apesar de preparados para duas respostas
negativas, depois de ter ouvido, surpreendentemente, positiva a primeira,
autorizando que se expusessem os trabalhos, a segunda deixou no ar um espectro
de desânimo e surpresa. Mas não o suficiente para nos desviarmos do rumo
traçado.
— Quer selecionar as obras para levarmos, por
favor? Enquanto as escolhe, eu coloco-as no carro. — Sugeri a D. Rosa.
— Vamos, vamos entrando, por favor. Fiquem à
vontade. — Disse Margarida, que seguiu na nossa frente.
D. Rosa começou de imediato a selecionar os
quadros, e eu levava-os para o carro sem demoras.
Pouco mais de meia hora passara, e o carro já
tinha a mala e os bancos traseiros apinhados. Alguns quadros mais pequenos
foram colocados na parte da frente, onde a D. Rosa teve de "lutar"
para caber junto deles.
Muito rapidamente despedimo-nos da Margarida,
demostrando uma grande vontade de a ver na exposição dos trabalhos dela.
— Margarida, sem a querer estar a forçar a
nada, a decisão é sua, será uma enorme satisfação vê-la na exposição dos
seus trabalhos, que vamos preparar com todo o gosto, para abrir ao público,
extraordinariamente, de segunda-feira a uma semana, e encerrar no domingo.
Até um dia destes. — Concluiu D. Rosa.
— Obrigado e até breve. — Agradeceu Margarida,
acenando com a mão.
Os dias passaram rápido com as habituais
rotinas, acrescidas pela preparação da exposição. Algumas vezes, também tive de
ajudar a D. Rosa. Para a Margarida e para o seu gato, os dias passaram de forma
mais lenta, devido aos espaços que ficaram vazios na sua casa.
Tal como havia sido combinado com Margarida, a
exposição não fora anunciada em lugar nenhum. Contudo, D. Rosa, aqui e ali,
deixava escapar a quem visitava o museu que andava muito atarefada porque
estava a preparar uma exposição "que não expunha". Essa frase ficava
no ouvido e aguçava a curiosidade dos visitantes.
Pouco faltava para as 10h00 da segunda-feira.
Apenas eu e a D. Rosa estávamos no museu, ela olhou à sua volta para confirmar
que tudo estava em ordem e colocou um pequeno volume de catálogos do
evento numa mesa junto à entrada.
Assim que confirmou que
tudo ficou pronto, D. Rosa destravou as duas portas, abrindo-as quase
em simultâneo, e em tom de anúncio televisivo, disse:
— Faço a abertura do museu nesta segunda-feira
e dou por inaugurada a exposição de pintura e poesia intitulada: "O
Visível do Invisível da Arte", da pintora e poetisa Margarida.
Como era a única pessoa ali presente, bati
palmas e desejei sucesso para o evento.
A manhã passou com apenas quatro visitantes,
que, ao saberem da exposição, fizeram questão de a ver. A parte da tarde
trouxe mais gente, o que é habitual segundo a D. Rosa.
O número de visitas ao museu foi crescendo a
cada dia, e os visitantes mostravam-se satisfeitos, pelo que se percebia das
conversas à saída. A sala onde a obra da Margarida estava exposta
tornou-se passagem "obrigatória".
Na sexta-feira, foi necessário fotocopiar
catálogos. O sábado teve bastante mais visitas — chegaram a estar no interior
da exposição mais de uma dezena de pessoas, por alguns períodos —. O
domingo foi mais calmo do que o sábado, mas mais concorrido do que a
sexta-feira. Muitos dos visitantes eram estrangeiros e emigrantes portugueses.
Nos últimos dias, vários quadros de Margarida ficaram sob reserva para serem
vendidos, caso ela autorizasse.
Perto da hora de encerramento, uma senhora
entregou um envelope à D. Rosa, e deu-lhe os parabéns pela organização e pela
beleza das obras.
— Estou a reconhecê-la agora. Desde sexta-feira
que tenho andado tão atarefada que nem presto a devida atenção às pessoas. Peço
desculpa. Agradeço-lhe muito as suas palavras. Como está a amiga poetisa Joana
Ramo? É para reservar algum quadro? — perguntou D. Rosa.
— Estou bem. Obrigada. A próxima semana será
certamente mais tranquila para si. Não, não é para reservar, vim apenas
entregar-lhe um envelope que uma amiga me pediu. Peço-lhe desculpa, tenho
de ir. Obrigado por tudo D. Rosa. — Concluiu a poetisa.
D. Rosa colocou o envelope na gaveta, mas ficou
curiosa. Virou-se para mim e perguntou:
— Ainda estão muitas pessoas na exposição
"O visível do Invisível"?
— Penso que apenas quatro pessoas. — Respondi.
— Bem... vou começar a arrumar. Pode ser que
também se arrumem. — Disse D. Rosa, a sorrir.
Pegou no envelope, ansiosa, e começou a ler:
"Vi com os meus olhos, algo cansados da
tela da vida e das cores que nem sempre a pintam, que há momentos que ficarão
para sempre: os gestos simples das pessoas, os sorrisos e expressões
espontâneas de carinho e afeto. É na singeleza e simplicidade que os olhos
vislumbram as cores do conforto da gratidão e do amor.
Vi tudo isso estampado nos olhos dos visitantes
que enchiam a sala. Senti-me feliz no meio das pessoas, na sala que denomino
por: "Sala Am'Arte".
Muito obrigada a todos os visitantes. Muito
obrigada, D. Rosa e Sr. João. Um bem-haja a todos.
Margarida."
D. Rosa deixou-se vencer por um misto de
sentimentos: estupefação, curiosidade e comoção. E falou em tom reprimido:
— Sr. João, Sr. João, ela esteve aqui. Temos
que perceber quando e como.
— Ela quem? — Perguntei.
— A Margarida. Temos de puxar pela
memória ou pelas imagens da videovigilância. — Disse apreensiva, D. Rosa.
Decidimos ver as gravações dos últimos três
dias. O domingo não revelou nada. Sábado de manhã também não. Mas, ao ver as da
tarde de sábado, a D. Rosa quase gritou:
— Pare, pare... é ela.
Voltámos atrás e lá estava, vestido
comprido verde com pequenas margaridas brancas, chapéu de aba larga a
cobrir-lhe parte do rosto e óculos escuros. Ao entrar, fez uma vénia com a
cabeça ao passar pela D. Rosa, escondendo-se ainda mais. Usou o chapéu como um
escudo para se proteger, caminhou pela sala, ouviu comentários, sorriu
discretamente. Parecia feliz.
— Não há dúvida que é a Margarida. Pareceu-me
mais alta. — Disse D. Rosa.
— Efeitos do vestido comprido e do salto dos
sapatos. Mas muito elegante. — Acrescentei.
— Agora teremos de falar com a
Margarida, para ver se quer vender os quadros reservados.
— Vamos a casa dela amanhã? — Perguntei.
— Sim. Amanhã é a minha folga. — Devolveu D.
Rosa.
Na segunda-feira, à hora marcada, fomos à casa
da Margarida. Estava tudo fechado, o gato não estava na cadeira de baloiço, e
havia um papel no vidro da porta: "Correspondência ou assuntos -
Dirija-se ao balcão da Piscina Municipal".
No balcão, a funcionária entregou um envelope a
D. Rosa. Dentro, uma carta que dizia:
"Agradeço-lhes muito, D. Rosa e Sr. João.
Ausento-me por tempo indeterminado.
Relativamente à minha obra deverão consultar o
meu advogado, cujo cartão para contacto se encontra junto”.
A D. Rosa, com o seu desembaraço habitual,
pegou logo no telemóvel e ligou para aquele número. A funcionária do
escritório, informou-a da doação de toda a obra a favor do museu, cuja
documentação já estava assinada pela Margarida e Câmara Municipal.
— Oh... Que grande e agradável notícia. − Exclamou
D. Rosa, de lágrimas nos olhos.
Abraçámo-nos emocionados, celebrando a Arte, a
Cultura, e sobretudo, o talento, a generosidade e a discrição de Margarida.
A sala dedicada à sua obra passou a ter o nome
"Sala AmArte".
FIM
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Poema "FLORES DE OUTONO"
Há flores com cores,
flores com significados,
flores com perfume,
flores com alma,
flores com sentidos.
As cores desafiam o pó do outono,
o perfume aquece a brisa fria,
a alma floresce no silêncio da estação.
Flores que caem, flores que ficam,
outras que preenchem o canteiro,
flores que sussurram histórias ao vento…
Em pleno outono,
são mais as que se foram do que as que chegam.
E mesmo quando o outono leva tudo,
há flores que resistem,
que guardam a memória da primavera.
E assim continuará, inverno fora:
sempre mais idas do que chegadas.
E não há regressos.
O pó apaga-se nos olhos da chuva fria.
sábado, 11 de outubro de 2025
Poema "GOTEJO INTERIOR"
Carrego dias longos
e árvores cansadas,
campos dourados
que ainda sonham junho,
começos e fins de dias
de melodias calmas,
meses e vidas
que escorrem por dentro.
Ainda me movem
as ilusões que vejo
de olhos fechados,
e a tua silhueta
a fugir na pele imóvel das águas
de mares secretos.
A liberdade,
só em sonho floresce
e nos inebria,
em versos singelos,
desamarrados de dogmas,
curados da mentira.
Já não sei se o que sinto
é água ou dor,
ou o alvoroço
do desmaio das flores
a murchar no gotejo do tempo.
Mas sei que os cravos
são almas livres,
e que as rosas
são brisas perfumadas.
Sei que o respeito e o sorriso,
o olhar e o silêncio,
a mão e o seu calor,
são centelhas de amor.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Poema "SONHOS DE OUTONO"
SONHOS DE OUTONO
A luz nas tardes de outono
vai-se esvaindo na ternura
dum singelo sonho ou sono,
José António de Carvalho, 29-setembro-2025







