Mudamos sem dar por isso,
como água a fluir no rio;
a vida empurra, dobra, inclina,
e o corpo cede ao desvio.
Vestimos sempre novas peles,
tentamos salvar o coração;
umas são nossas, outras não,
mas fingimos para proteção.
O espelho mente de leve,
com rude ternura ou crueldade;
mostra sombras do que fomos
e afasta-nos da verdade.
E assim seguimos vivendo
entre o que somos e parecemos:
a alma aprende a fingir depressa,
o mundo exige — e cegos embarcamos.
No limiar da ilusão
erguemos casa no assombro;
somos quem somos… e o resto
dissolve-se dentro de nós:
entre o que fomos
e o que sonhávamos ser,
entre o que não fomos
e jamais será nosso.
José António de Carvalho, 24-maio-2026
Foto "Pinterest"
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