sexta-feira, 17 de julho de 2026

Poema "ESCALA DO TEU REGRESSO"



ESCALA DO TEU REGRESSO

Quando o Sol acorda
e a Lua ainda derrama poesia,
meu corpo fica mais sedento
da frescura da tua maresia.

Cada toque é um Sol,
cada beijo é um Si.

Se não estás, é um Dó;
que o tempo faça Ré
e voltes num abraço a Mi
porque não sei
viver sem ti;

e, quando estou só,
afogo as mágoas
em Dó maior.

José António de Carvalho, 17-julho-2026
Claude Monet “Waterlillies”




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Poema "ELOS" - dedicado a todas as crianças


ELOS


É tanta a graça que tem
nesta minha caminhada;
falo do livro à mãe,
e encanto a pequenada.

Encanto-me mais a mim,
menos a eles, que são
pequenos e querem, sim,
o mundo e a lua na mão.

Às vezes não vejo assim,
mas perco o medo e vou;
e, distraindo-me de mim,
visto a criança que sou.

Sonho como eles, consigo
contar aventuras, risadas;
umas têm a ver comigo,
outras são só inventadas.

Levo histórias na mão,
empurro-as no caminhar;
cresce em mim a paixão
de aprender e de ensinar.

Sigo o canto que me guia,
trago o mundo no olhar;
vive em mim esta alegria
de crescer e partilhar.

José António de Carvalho, 13-julho-2026
Foto da XX Feira do Livro da Maia



domingo, 5 de julho de 2026

Poema "SÓ O AMOR SOBREVIVEU"


SÓ O AMOR SOBREVIVEU


A asa que me levava no sonho
deixou-me cair
no alvoroço ardente do teu corpo,
onde o verde 
ouro se erguia
até ao imenso azul.

Agora terás de mergulhar no silêncio,
até que a tua alma seja lavada
na profundidade dos fios das raízes.

E regressarás de rosto afável
para os meus braços hesitantes,
que te recebem sempre coroada.

Depois deste fogo inarrável,
surgirás mais única do que antes,
aos olhos deste amor incontornável
tão cego como dois eternos amantes.

José António de Carvalho, 05-julho-2026
Foto Pinterest



Foto do incêndio que devastou a floresta do monte de Vermoim, incluindo a área do vestígios arqueológicos que se encontrava em fase de requalificação.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Texto "DESLIGUEM QUALQUER COISINHA"


DESLIGUEM QUALQUER COISINHA

Hoje, uma colega de trabalho perguntou-me se alguma vez me tinha “embedado”.

Disse-lhe que não. Evidentemente, nunca.

Tenho a clareza de um vinho branco e a textura de um tinto maduro — sim, porque eu sou um maduro.

O sabor… o sabor?

Estou agora a senti-lo.

Os efeitos, esses, dir-me-ão vocês, depois.

Chamarem-me bêbado é a maior injustiça que se faz a alguém que tenta criar algo interessante a partir do nada, do cinzento ou do negro da vida — e também dos incêndios de hoje, que são reflexo do Homem comum e do comum‑homem doente, sem que se conheça verdadeiramente a doença.

Terão bebido ou drogado? Por falar nisso…

Conhecem a doença de Crohn? E o néctar Krohn?

Muda-se uma letra, perde-se a essência, ganha-se o ânimo e a alegria.

Alguns dirão que é indecência — mas a vida também se faz destes pequenos desvios.

Por falar em desvio, abram alas, afastem-se, que tenho que dormir. Amanhã é dia de trabalho.

E este cheiro a cinza seca, a pairar no ar quente e seco, não augura um bom sono.

Depois da noite e de um dia, Portugal sobreviveu no Mundial.

O calor é cada vez mais intenso e as casas estão secas e quentes.

A humidade atmosférica parece intimidada.

E nós lá continuaremos, ludibriados pelos filmes de uma verdade a cores — essa verdade que a vida insiste em projetar, com um enorme fundo de ecrã negro.

Foto1 "Imagem do bombeiro a combater incêndio em Vermoim"
Foto2 "Garrafa do Vinho Krohn 2022"

Foto 1


Foto2