domingo, 21 de junho de 2026

Poema "O POEMA QUE NÃO ESCREVO"



O POEMA QUE NÃO ESCREVO

Queria escrever um poema,
Mas não tenho tempo para o fazer.
E ele precisa de repousar no tempo.

Tempo que lhe faz amadurecer as sílabas,
Penetrar na nascente das palavras,
Tender a lira íntima até secar a emoção,
Escavar a fresta do rochedo até à humidade
Lacrimejada das imagens que deslumbram.

Não sou capaz. Não tenho tempo.

Vou dormir com este nó no peito.
Este aperto de não escrever o poema.
Aquele poema que me fez sonhar,
Ou sorrir, chorar, voar, existir;
e que nunca consegui escrever.

Também nunca alguém o iria ler.
Talvez nem sequer ouvi-lo.

Boa noite!...

José António de Carvalho, 21-junho-2026
Foto Pinterest 





Reflexão "PODIA ESTAR CALADO. AFINAL, É DOMINGO À TARDE..."

PODIA ESTAR CALADO. AFINAL, É DOMINGO À TARDE...

Nada mais falso do que a frase tantas vezes repetida: “Sou feliz como sou. O que os outros pensam não me importa para nada.” É falso. Profundamente falso.

Vivemos todos em sociedade, mesmo quando insistimos em viver isolados. Mais cedo ou mais tarde, para existir, precisamos de sair do nosso casulo. E, quando saímos, confrontamo‑nos com notícias, conversas, atitudes e acontecimentos que nos mostram que estamos longe dos outros — e, perante esse desconforto, agarramo‑nos ao argumento fácil: “Os outros é que estão mal. Eu estou certo. Continuarei a ser como sempre fui.”

Mas esta visão de nós, dos outros e da vida não nos leva a lado nenhum. Fecha‑nos. Encolhe‑nos. Torna‑nos mais sós e menos capazes de ver a realidade do mundo.

E se isto é verdade para cada um de nós, é também verdade para quem lidera. Basta olhar para os erros dos líderes das grandes potências — e de tantos outros países. Vivem fechados sobre o seu ego, sobre o seu interesse imediato e sobre o círculo que os rodeia. Assim se cria um fosso cada vez maior entre ricos e pobres, fortes e frágeis, informados e ignorantes.

Quando o mundo funciona assim, não admira que quem está no lado desfavorecido deseje subir ao patamar dos favorecidos. E daí nascem a corrupção, os favores, as pressões, o uso de influência, as guerras. Porquê?

Porque vivemos num sistema onde o dinheiro e o poder dominam tudo. O ser humano deixou de ser o centro. O ser humano voltou ao antigamente e é, cada vez mais, instrumento.

O dinheiro compra tudo — inclusive poder. O poder decide. E quase sempre à custa do mesmo grupo: os contribuintes, aqueles que pagam, sustentam, suportam e raramente são ouvidos.

Talvez o primeiro passo para mudar isto seja reconhecer o óbvio: ninguém vive sozinho, ninguém se constrói sozinho, ninguém se salva sozinho. A relação com o outro não é uma ameaça — é a única possibilidade de futuro.

Bom domingo.




sábado, 6 de junho de 2026

Marcha de Santo António – 2026

Marcha de Santo António – 2026

Quadras a concurso organizadas em Marcha Popular.

As festas de Santo António voltam a iluminar Famalicão com o brilho que só a tradição sabe acender. Entre o som das marchas, o perfume dos manjericos e a alegria que percorre as ruas, nasceram estas quadras — algumas delas distinguidas com menção honrosa no concurso deste ano.

Agradeço ao Orfeão Famalicense, que celebra 110 anos de existência, e à Câmara Municipal de Famalicão, pela organização deste concurso que mantém viva a nossa identidade cultural e dá voz aos que continuam a escrever para a festa.

Reunidas agora numa versão organizada e evolutiva, estas quadras formam uma marcha completa: começam na cidade que desperta, seguem pela folia do feriado, atravessam o baile popular, celebram o orgulho famalicense e regressam à emoção que une o povo em cada junho.

São versos que dançam, que sorriem, que recordam e que celebram.

São também um gesto de gratidão à inspiração que, ano após ano, me leva a participar nesta tradição tão nossa.

Que estas quadras continuem a ecoar nas ruas, nos arraiais e nos corações.

José António de Carvalho


Marcha

Pelas ruas da cidade há muito corre o rumor: Santo António, na verdade, é mestre do bom humor.


Refrão Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Pecado é trabalhar no dia de Santo António, vamos lá todos dançar nestas festas património.

No dia das Antoninas pecado é trabalhar, faço férias pequeninas para poder festejar.

Na terra é feriado e veio mesmo a calhar, se o santo é festejado, pecado é trabalhar.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Alegria p’ras mais novas, ainda mais para as crescidas; é aqui que se dão provas, rapazes e raparigas.

Morta de tanto bailar e a noite ainda a meio; agora já tenho par, vamos dormir no centeio.

No centeio vou ficar, não sei se chego ao meio; se lá conseguir entrar, pois das bordas estou cheio.

Espero entrar na folia e arranjar um casamento; prometo que o levaria para o teu próximo evento.

Santinho, não leve a mal, se a quadra sai mais faceira; é costume no arraial, tudo isto é brincadeira.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

No relento vou ficar recuperando energias; e voltarei p’ra dançar e queimar mais calorias.

Santo António é do povo e tem grande coração trazendo vida de novo à nossa Famalicão.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Guarda, Santinho, a folia, grande noite a recordar... dá-me saúde e alegria, para o ano quero voltar.

O Santo António chuvoso vem o verão anunciar; vai ser mais delicioso com guarda-chuva a abrigar.

Há muito corre o rumor que o Santinho vai contente lá no alto do seu andor a saudar toda esta gente.

Convidei prás Antoninas belas rosas do jardim, são meninas bailarinas que dançam até ó fim.

Vieram dos quatro cantos do país para dançarem, nas ruas dos mil encantos fazem juras de voltarem.

No dia treze de junho há séculos a contar Vieira de voz em punho quis Santo António louvar.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.

Ver as ruas tão floridas, com gente linda a sorrir, apaga a dor das feridas que a vida teima em abrir.

E nesta festa em união, o povo sábio em viver, de pé leve e coração, lá consegue renascer.

Há anos que se trabalha no f’riado do concelho; Santo António muito ralha, não lhe adianta fazê-lo.

Ai Santinho, estou sem ar e a noite ainda vai criança, a dançar perdi meu par; o que fazer da aliança?

Inspira-te Santo António e faz lá a tua quadra; incentiva o matrimónio... verás que não custa nada!

És feliz com o menino nesse colo acolchoado, mas não é esse o destino de muito pobre coitado.

Ligam o treze ao azar por esquecerem o dia que Santo António vem dar razões de tanta folia.

Canta e dança alegremente, sejas jovem ou nem tanto, contagia toda a gente na festa do nosso Santo.

As pombinhas acordaram na manhã do dia treze e bem cedo festejaram na lagoa da Devesa.

Refrão

Viva a marcha, viva a festa, que ninguém fique parado; Santo António não protesta p’lo povo ser animado.