A VIDA E O RELÓGIO DO SÉCULO XX
Penso na vida como um velho
relógio de ponteiros, desses que indicavam o dia, a semana, o mês. Um relógio
ultrapassado, mas ainda muito apreciado pela sua beleza e delicadeza.
Penso, também, na forma estranha
como o tempo acelera à medida que avançamos.
Aos dez anos, a vida
arrasta-se, quase imóvel, como o marcador do mês — olhamos, voltamos a olhar,
e nada parece ter mudado.
Aos vinte, avança com a lentidão
confortável do indicador da semana. O tempo ainda é largo, ainda há espaço para
tudo. Chega a cansar olhar para o relógio sempre na mesma hora.
Aos trinta, o tempo ganha
cadência. Já não o seguimos com os olhos, mas com os sentidos; confiamos nele.
O dia passa como o ponteiro das horas: constante, previsível, quase silencioso.
Apenas acreditamos que passou depois de ele já ter passado.
Aos quarenta, o dia passa como
passam os bons dias, com manhãs, tardes, fins de tarde e boas noites: nem
depressa, nem devagar, apenas como como deve ser.
Aos cinquenta, o dia já nos
engana. Entra num carro a diesel: começa devagar, quase hesitante, mas, quando
damos por isso, já está a chegar ao destino.
Aos sessenta, o dia precipita-se.
Vem à velocidade de um carro de Fórmula 1. Vemos a forma, adivinhamos a cor, e
já passou — ficam o fumo, o cheiro a borracha quente dos pneus e o deslocamento
do ar. Ficamos ainda a tentar perceber o que aconteceu, e entretanto passa uma
semana, ou um mês.
Aos setenta, surge como a
surpresa de um avião supersónico. Vemo-lo e assustamo-nos; rodamos o pescoço,
tentamos segui-lo com o olhar, e só depois chega o som — de outro Natal que
passa — e comovemo-nos.
Aos oitenta, é como um raio de luz.
Se o sentirmos, já é uma sorte.